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Acessibilidade atitudinal – Um relato de Ieska Labão

Acessibilidade atitudinal – Um relato de Ieska Labão

Escutei falar sobre o Inhotim pela primeira vez cerca de dois anos atrás, através de uma grande amiga, cujo pai, um sábio aventureiro de 90 anos de idade, leu uma reportagem sobre o Instituto e disse que desejava conhecê-lo.

Apaixonada por jardins e museus, encontrei na descrição daquele espaço um mundo de motivos para querer conhecê-lo o quanto antes. Soube que vinha sendo muito visitado por turistas estrangeiros e contava com estrutura adequada, o que me tranquilizou o suficiente em relação à acessibilidade necessária para transitar com as minhas rodas. Depois que amigas cadeirantes também o visitaram, confirmei que esse passeio precisava ser feito. E logo!

Entre uma rampa de madeira que me levou a um estádio infinito, uma trilha pela mata que me presenteou com Tunga ao seu final e salas de som que me transportaram para outras dimensões, encontrei, a quase 700 quilômetros da minha casa, um lugar que me impactou como poucos.

Cheguei no Inhotim em setembro de 2018, numa quinta-feira de manhã. De cara, eu e minha família fomos recebidos por uma equipe simpática, gentil e extremamente solícita. Fomos informados sobre as facilidades disponíveis para pessoas com mobilidade reduzida e contamos com os carrinhos de transporte durante todo o nosso passeio, mas não demorou para que percebêssemos que a acessibilidade do Instituto ia além disso.

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Vivemos em uma sociedade que ainda crê que acessibilidade significa rampas e guias rebaixadas. O conceito de acessibilidade atitudinal é pouco conhecido até mesmo em grupos de discussão social e, enquanto pessoa com deficiência, eu o considero uma das ferramentas mais importantes para a inserção da acessibilidade em qualquer espaço.

Entende-se por acessibilidade atitudinal, de acordo com o Ministério da Educação (2013): “[a] percepção do outro sem preconceitos, estigmas, estereótipos e discriminações. Todos os demais tipos de acessibilidade estão relacionados a essa, pois é a atitude da pessoa que impulsiona a remoção de barreiras”.

É através desse tipo de acessibilidade que Inhotim reduz suas barreiras estruturais e proporciona uma experiência para lá de satisfatória às pessoas que poderiam se ver impedidas de transitar em calçamentos de pedra e trilhas pelo meio da mata.

Para chegar à Galeria Psicoativa Tunga, contamos com o carrinho de transporte do Instituto para nos levar por uma trilha na mata. Proposital ou não, a experiência com a obra de Tunga, para mim, começou ali. Uma pessoa cadeirante não é exatamente bem-vinda em trilhas e não costuma experimentar os desafios físicos desse tipo de atividade, então, já pisei com minhas rodas na galeria sendo alguém diferente do que era dez minutos antes. Me ajeitei, me estalei, alonguei e fui de peito aberto experimentar Tunga pessoalmente pela primeira vez. E que experiência! Tunga mexe com os nossos sentidos, todos eles. Provoca, cutuca. Fica difícil dizer qual parte foi mais desafiadora: a ida e a volta pela trilha ou a galeria em si. De fato, nada descreve esse espaço melhor do que “psicoativo”.

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Fora desta galeria, mas tão psicoativas quanto, destaco as obras Sonic Pavilion, de Doug Aitken, e Forty Part Motet, de Janet Cardiff, ambas em exposição permanente. Uma mostra a voz do Planeta Terra a 200 metros de profundidade enquanto a outra preenche um grande galpão branco puríssimo com as 40 vozes de um coral. É para respirar fundo, fechar os olhos e se deixar sentir. Só é preciso cuidado para não querer ficar somente nessas duas instalações durante todo o dia.

Obras preferidas à parte, consigo pensar em poucos lugares nos quais me senti mais acolhida e mais envolvida pela arte. No Inhotim as plantas são arte, as obras são arte, as pessoas são arte. E é arte para todo mundo que tiver disposição para interagir com ela. Trilhas de terra e pisos de pedra, que costumam ser enormes impeditivos para qualquer pessoa com mobilidade reduzida, são superados pela disposição da equipe do Instituto em ajudar.

Como todo lugar que já visitei (e quando digo “todo” é todo mesmo), Inhotim mostra aspectos que ainda podem ser melhorados em relação à acessibilidade, mas, como em nenhum lugar que já visitei no Brasil, ele se mostra disposto, disponível e apto a se aprimorar.

Até breve, Inhotim.

Eu e minhas rodas não vemos a hora de te revisitar!

Ieska Labão



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