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Um dia de aula de expografia no museu-escola

Um dia de aula de expografia no museu-escola

Meu envolvimento com o Inhotim começou quando eu ainda era estudante de arquitetura, em 2008. Fui com a minha turma e uma professora para observar o paisagismo do lugar e acabei construindo com o espaço uma relação de empatia e inspiração.  O Inhotim se tornou um respiro da cidade grande, um lugar que não importa quantas vezes eu visite, nunca me cansa. Acabei, inclusive, realizando alguns importantes projetos da minha carreira como arquiteto em parceria com a Rizoma.  Assim, ao começar a planejar as aulas de Arquitetura de Interiores e Paisagismo da turma da pós-graduação da UNA Bom Despacho (MG), onde atualmente sou professor da disciplina Museografia e Expografia, foi elementar propor aos alunos uma visita ao Inhotim.

A proposta foi super bem recebida pelos alunos e pelas alunas. Optamos pela quarta-feira gratuita e nos planejamos para a pequena viagem. Minha ideia era explorar o Instituto com a turma por meio de uma visita guiada por mim, na qual eu buscaria considerar todas as complexidades de espaços expográficos. Nessa disciplina, eu estabeleço referenciais inseridos na história e na prática, reflexões e interlocuções da cultura e da arte com a arquitetura e, sobretudo, instigo a sensibilização para a crítica da arquitetura na contemporaneidade em projetos expográficos. Hoje em dia, é fácil buscar referências de museus em sites e revistas, mas viver o espaço é sempre diferente: nos desperta para muitas outras possibilidades e sensações. Eu queria fazer com que as alunas e os alunos percebessem isso na prática. Por fim, eles deveriam me entregar uma proposta de intervenção baseada no que discutimos durante a visita. O foco do trabalho foi o Museu Ferroviário de Bom Despacho (desenhado na foto acima), um espaço muito potente para novos olhares e caminhos, mas que está subutilizado atualmente.

Durante a visita, priorizei os pavilhões que ocupam construções remanescentes da antiga fazenda existente antes da criação do Inhotim. Quando se faz uma galeria do zero, quase tudo é permitido, mas quando a proposta é respeitar o edifício já construído, mesmo que ele seja usado para outra finalidade, é necessário um zelo, um cuidado muito maior para ressignificar aquele espaço. Daí, a importância em se conhecer as galerias Marcenaria, Rivane Neuenschwander, Carlos Gairacoa e Carroll Dunham, além da intervenção na antiga Igrejinha. Todos esses lugares foram analisados para inspirar a turma a desenvolver diferentes propostas.

O passeio foi complementado pelas visitas às outras galerias do museu, como a de Claudia Andujar. Lá, é possível ver as diferentes concepções dos espaços museográficos em relação à sua iluminação -se é natural ou não, direta ou indireta, focal ou difusa- e aos fluxos dos visitantes e suas superfícies expositivas.  

Estou certo de ter sido fundamental passar este dia no museu-escola Inhotim, para que os alunos estabelecessem uma relação com o cotidiano dos cidadãos em prol de uma maior abertura dos espaços expositivos. As propostas inspiradas no passeio passaram por temas que resgatam e respeitam a história da cidade mineira, mostrando a  influência da via férrea e a relação com outras cidades vizinhas. Também houve sugestões que jogavam luz em tradições como o congado, os dialetos da região e, também, na produção local de laticínios e exploração mineral.

Os trabalhos apresentados, em forma de coletivo, conformam um legítimo manifesto de ocupação para o edifício porposto. Eles foram reunidos e serão encaminhados, por meio da coordenadora do curso, ao prefeito da cidade como sugestão.  

Após tantos idas ao Inhotim, seja à trabalho durante o período em que colaborei com o escritório de arquitetura Rizoma ou em visitas acompanhando amigos e familiares, o museu ainda me surpreende como espaço ímpar no ensino-aprendizagem.



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