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  • 29 de abril de 2015

    Itamara Soalheiro

    Gestora do Programa Inhotim para Todos.


    arteeducaçãomeio ambientevisita

    Leitura: 4 min

    Inhotim para Todos: entre universalidade e singularidades

    Inhotim para Todos: entre universalidade e singularidades

    O acesso pleno à cultura é transformador. Em Inhotim esse pensamento se manifesta de forma particular no programa Inhotim para Todos. Criado como uma das ações de democratização do acesso ao Instituto, o programa estabelece parcerias com projetos sociais de instituições públicas ou de organizações da sociedade civil, garantindo entrada e acolhimento gratuitos ao parque. Para a comunidade de Brumadinho, o programa assegura, ainda, ações continuadas nas sedes dos projetos. Ao longo dos anos, o Inhotim para Todos acumula relatos que informam sobre seu alcance, diversidade e estímulo ao empoderamento.

    A imagem de um casal de idosos caminhando de mãos dadas pelos jardins do parque  ilustra as experiências vividas por milhares de pessoas que visitaram o Inhotim com Grupos de Convivência e Fortalecendo os  Vínculos de Centros de Referência de Assistência Social (CRAS). Essas parcerias incentivam a  socialização e as escolhas autônomas durante as visitas, garantindo a inserção de grupos comumente não usuais em espaços culturais.

    Grande parte do público do Inhotim para Todos é composta por pessoas da terceira idade. Não é raro encontrar uma idosa abraçando uma árvore enquanto realiza visita por meio do programa ou comemorando seus noventa anos com os colegas de Unidade Básica de Saúde (UBS), dizendo que conhecer lugares como o Inhotim é motivo para viver com alegria.

    Momentos singelos demonstram como cada um sente e vive o Inhotim.

    Momentos singelos demonstram como cada um sente e vive o Inhotim. Foto: Daniela Paoliello

    Crianças e adolescentes que participam do projeto proporcionam outras formas de ver o programa. A facilidade com que decifram ou estranham uma obra de arte não apresenta oposição de ideias, mas pluralidade de olhares vindos de diversos lugares. Esses grupos chegam ao Inhotim diretamente de  casas de acolhimento, espaços para cumprimento de medidas socioeducativas ou escolas de teatro. Nesses visitantes é perceptível a ocorrência de deslocamentos e processos marcados pela inquietude, curiosidade e experimentação tão comuns na juventude.

    Crianças se divertem no mundo monocromático da obra Desvio para o Vermelho (1967 - 1984), de Cildo Meireles.

    Crianças se divertem no mundo monocromático da obra Desvio para o Vermelho (1967 – 1984), de Cildo Meireles. Foto: Rossana Magri

    Experimentação é igualmente recorrente para os grupos de pessoas com deficiências atendidas pelo programa. Seus trajetos são marcados por escolhas sensoriais, valorizando espaços interativos, como o “Jardim de Todos os Sentidos” que propõe atividades envolvendo  os cinco sentidos humanos. Os relatos desses grupos sobre suas visitas são habitualmente detalhados, informando sobre as potencialidades e limitações do parque e destacando a extrema importância do atendimento oferecido pelos mediadores, monitores e condutores.

    Grupos como esses inspiram a equipe do programa a pensar as relações entre os acervos do Instituto e o atendimento de públicos com suas diferenças. Pequenos momentos de beleza, como os aqui relatados, reforçam a crença no potencial transformador de Inhotim!

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    09 de abril de 2015

    Morgana Rissinger

    Curadora de programas públicos do Inhotim.


    Leitura: 6 min

    Dançando a arte de Channa Horwitz

    Dançando a arte de Channa Horwitz

    A abertura da mostra DO OBJETO PARA O MUNDO – COLEÇÃO INHOTIM, no Itaú Cultural, em São Paulo, contou com um momento singelo e poético trazido pela realização de três performances criadas pela americana Channa Horwitz. A apresentação trouxe, através da dança, mais um viés de aproximação entre o público e a obra da artista. Executadas pelos bailarinos da Cia. Sesc de Dança, as performances foram dirigidas pela filha de Horwitz, Ellen Davis.

    Ao longo de mais de quatro décadas, Channa Horwitz (1932-2013) produziu uma extensa obra em torno do movimento, do tempo e do ritmo. Baseada na cadeia numérica de um a oito, em seus desenhos, pinturas, filmes, objetos tridimensionais e performances, Horwitz repete e combina cores, linhas e pontos dentro de um rigoroso método por meio do qual o pensamento lógico-matemático possibilita a emergência de conceitos de ordem mais subjetiva, como o acaso e a liberdade. Com suas repetições e segmentações, a artista cria um espaço para a experimentação que envolve corpo e mente e afirma que, para a liberdade existir, é necessário limitar as escolhas.

    Sua investigação chega assim ao sistema que denominou Sonakinatography, ou como a ele se referia informalmente, Sonas. Esses desenhos servem como partituras para a interpretação de outros artistas, como músicos, atores e coreógrafos. As performances criadas a partir dessas obras de alguma forma diluem a rigidez do sistema e dão lugar à surpresa e ao desprendimento aos quais a artista se referia e cuja busca era uma constante em seu trabalho, representado na exposição por obras bi e tri dimensionais dos anos 1960 e 1970.

    A primeira performance apresentada foi At the tone. Quando as cortinas abriram, vimos quatro bailarinas movendo-se lentamente ao som de uma respiração profunda; seus movimentos unidos a este som lembram as ondas do mar. Esta obra foi realizada pela primeira vez em 1969, em Los Angeles, e traz figurinos feitos por Horwitz baseados na série Quadrados e círculos preto e branco (1967-68). Ao longo dos pouco mais de dez minutos de duração que a peça tem, foi divertido observar os quadrados e círculos se formando e se desfazendo dentro da coreografia, pelos movimentos das bailarinas, ou mesmo através da sobreposição dos desenhos do próprio figurino.

    Em seguida, assistimos Poem Opera. Realizada originalmente na Bolonha, Itália, em 1978, é composta por oito roteiros de cerca de 8 metros de comprimento contendo palavras que descrevem qualidades opostas de uma pessoa (jovem/velho, feliz/triste, sonhador/realista), lidos simultaneamente por oito atores. Acompanhadas de um metrônomo, as vozes criam uma cacofonia que destaca as infinitas combinações entre ordem e acaso, a palavra escrita e o movimento no tempo. Depois de um momento, as palavras declamadas em ritmo e entonação rígidos viram uma música e seus significados – inicialmente tão presentes – se diluem no conjunto de vozes.

    objeto para o mundo

    Combinação entre palavra e movimento ajudam a descrever qualidades opostas de uma pessoa em uma das performances. Foto: Ivson Miranda

     Por fim, vimos Sonakinatography Composition III. A performance mescla dança, luz e som em uma combinação de movimentos e tempos rigorosos, acompanhados de música também executada com base nas partituras de Horwitz. Nessa performance as luzes coloridas projetadas sobre os corpos dos bailarinos, mesmo seguindo um ritmo matemático, acabam por destacar o engajamento com o “aqui e agora” – o “fantasma do infinito” do mundo dos algoritmos se concretiza em cor, luz e movimento durante as performances. Como comentou uma das pessoas do público ao final da apresentação, a união de movimento, cor e luz formou diante de nós uma espécie de alfabeto, algo novo para inspirar nossa observação da obra de Channa Horwitz.

    Dança, luz e som são combinados com movimentos rigorosos na terceira apresentação.

    Dança, luz e som são combinados com movimentos rigorosos na terceira apresentação.

    EXPOSIÇÃO
    As obras da artista podem ser vistas na mostra “Do Objeto para o Mundo – Coleção Inhotim”.
    Quando: de 2 de abril a 31 de maio de 2015. Terça a sexta, das 9h às 20h. Sábado, domingo e feriado, das 11h às 20h.
    Onde: Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149 – São Paulo/SP)
    Entrada gratuita.

    Indicado para todas as idades.
    doobjetoparaomundo.org.br

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    24 de março de 2015

    Lilia Dantas

    Supervisora de Arte e Educação do Inhotim


    botânicajovens agentes ambientaismeio ambiente

    Leitura: 3 min

    Protagonistas da transformação

    Protagonistas da transformação

    Desde 2008, o projeto Jovens Agentes Ambientais oferece um programa de formação a moradores de Brumadinho, estimulando o entendimento sobre questões ambientais e a adoção de comportamentos mais saudáveis em relação ao ambiente e ao uso dos recursos naturais. Ao longo dos encontros, discutimos assuntos que ultrapassam o conteúdo escolar e se aproximam do aspecto político e social das questões mais urgentes relativas ao meio ambiente e sua conservação.  Nesse processo de descobertas, o Inhotim e seus acervos se transformam em um grande laboratório de pesquisa e experimentação, um espaço que promove o encontro com o desconhecido e o incomum, uma ferramenta para o conhecimento e para a ampliação de horizontes.

    Ao longo dos meses, nos concentramos em pesquisar e adotar atitudes que contribuem com o bem estar socioambiental, seja no ambiente-rua, no ambiente-casa, ou no ambiente-escola.  Fazendo esse exercício, logo percebemos que há muito ao nosso redor que deve ser cuidadosamente observado e transformado. No JAA, o principal motor para essa transformação é, sem dúvidas, a energia e a criatividade destes jovens que, juntos, propõem ações que nos provocam a refletir e a reconsiderar nossos hábitos mais comuns.

    Como educadores, desejamos provocar o jovem a se perceber protagonista da sua própria experiência no lugar onde vive. Entendemos que são muitas as oportunidades que temos de mudar a relação entre homem e ambiente, por isso exercitamos a habilidade de identificá-las e de atuar sobre elas em qualquer escala – Transformar o mundo no quintal de casa, nas calçadas da cidade, ou em meio à mata.

    Em 2015,  25 jovens da rede pública de ensino de Brumadinho vão participar do projeto. Em um calendário anual de atividades, o Jovens Agentes Ambientais vão participar de encontros no Inhotim, pesquisas de campo em Brumadinho e seus distritos rurais, encontros com técnicos e especialistas da área ambiental, além de ações planejadas e executadas pelos alunos no espaço público.

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    20 de março de 2015

    Lorena Moreira


    botânicadia da águameio ambiente

    Leitura: 2 min

    Semana da Água Inhotim

    Semana da Água Inhotim

    Pensar em água nos remete a muitas lembranças agradáveis: as cachoeiras de Minas Gerais, a água fresca que sacia a sede, o ventre da nossa mãe, a praia, a chuva e muito mais. Entretanto, devido à poluição e assoreamento de rios, desmatamentos e desperdícios, atualmente, a temática escassez de água está em pauta nas discussões ambientais. São, principalmente, nos momentos de crise que lembramos que a água é um recurso finito e escasso. Pensando nisso, a Semana da Água do Inhotim trás considerações importantes sobre essa temática!

    Você sabia que o Brasil possui 12% da água doce superficial do planeta? Imaginava que se toda água do mundo coubesse numa garrafa de 1 litro, apenas meia gotinha estaria disponível para beber? No Circuito Água é possível descobrir curiosidades e aprender as diversas formas de armazenagem de água das espécies botânicas presentes no acervo botânico do Instituto Inhotim.

    Muitas descobertas esperam pelos visitantes no Espaço Ciência. Além de conhecer parte da coleção de plantas aquáticas do Jardim Botânico Inhotim, o público tem a oportunidade de ver de perto, através da lente de lupas e microscópios, animais, vegetais e protozoários que dependem da água para viver.

    Foto: Rossana Magri

    Foto: Rossana Magri

    Confira a programação, participe da Semana da Água Inhotim e aprenda como fazer a sua parte para a preservação da água.

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    04 de março de 2015

    Walter Sebastião


    arteexposição

    Leitura: 8 min

    Vasto Mundo

    Vasto Mundo

    * O texto abaixo foi escrito pelo jornalista Walter Sebastião para o caderno EM Cultura, do Jornal Estado de Minas. Publicado em 03/03/2015

    Uma característica palpável da arte é que ela, com o tempo, muda, conforme ensina o italiano Lionello Venturi no belo livro ‘História da crítica de arte’. Ou seja: a arte, em outros tempos do mundo, foi diferente (no que se refere a práticas, conteúdos, formas, conceitos, materiais etc.) do que é hoje e, quase certamente, do que ela será no futuro.

    Em linhas muitos gerais, o objeto artístico, como conhecemos no Ocidente, teria sua “origem” em peças com função utilitária que se destacavam pelos cuidados de elaboração, pelo material empregado em sua realização, pela beleza ou pela singularidade de suas formas. Preservadas por esses motivos, essas peças acabaram gerando um acervo que induziu à produção de objetos que deixaram de lado a dimensão de uso para se concentrar apenas em especulações estéticas.

    Eis um processo não linear, longo, complexo, que carrega outra transformação: a troca da representação de heróis, narrativas e tempos míticos pela exaltação de homens notáveis – reis e santos, especialmente, mas não só. A aproximação do cotidiano (e do tempo contemporâneo dos artistas) se dá de modo contínuo. Mais tarde, esse processo engendra a troca de personagens aristocráticos e da elite econômica (e os hábitos deles) por representação das vivências, dramas e percepções do cidadão “comum”.

    Embora a origem do objeto de arte pareça abstrata, é fácil perceber sua concretude, por exemplo, no caso dos grandes artistas do barroco-rococó brasileiro –, produtores de uma arte que ainda tinha um função utilitária (no caso, religiosa), mas que também já exercitavam com desenvoltura valores estritamente artísticos.

    Vale a pena ter esses aspectos em consideração no momento em que uma exposição – “Do objeto para o mundo – Coleção Inhotim“, curadoria de Rodrigo Moura e Inês Grosso, em cartaz até o próximo domingo, no Palácio das Artes, e no Centro de Arte Contemporânea e Fotografia –, foca as transformações da arte (e registra os 10 anos de atividade do Centro de Arte Contemporânea Inhotim).

    ESTRATÉGIAS O foco dessa exposição está sobre trabalhos de arte que aspiram a ser acontecimentos (no mundo) e não representações deles. São criações dos últimos 50 anos que se valem de várias estratégias. Tanto há peças que impõem sua presença física no espaço real quanto ações, as mais diversas, que interpelam a noção de arte como objeto. Há, ainda, trabalhos que se abrem para interação com o espectador. Esses, que são motivos onipresentes em grande parte da coleção Inhotim, estão apresentados na exposição de forma sintética.

    O tema da exposição (do objeto para o mundo) está nítido na Grande Galeria. Ali, ele é mostrado com uma reunião de trabalhos tão saborosa – pela qualidade das obras e pela diversidade de pontos de vista – que “esvazia” de supresas os outros espaços. Mas todas as galerias têm ótimas obras. Esse mérito advém do fato de Inhotim ter um acervo admirável, que foi definido e construído com rigor conceitual e senso histórico, mas especialmente com sensibilidade.

    Os curadores demonstram gosto por criar diálogos (inclusive entre gerações) e paixão em apresentar descobertas. É de emocionar o resgate de intervenção do mineiro Décio Novielo, dos anos 1970, inclusive com filmes de época. Assim como a atenção dispensada ao Livro da criação, uma das mais belas obras da carioca Lygia Pape. E ainda a criação de um ambiente adorável (apenas com portfólio e dois vídeos preciosos) para se conhecer melhor um artista especial: o norte-americano Chris Burden.

    Do Objeto para o Mundo - Coleção Inhotim. Foto: Eduardo Eckenfels

    Do Objeto para o Mundo – Coleção Inhotim. Foto: Eduardo Eckenfels

    É um cuidado que ajuda a ir tecendo uma história com a produção recente, mas também com trabalhos que, por muito tempo, foram relegados e esquecidos nos ateliês dos artistas. Trazer estas obras e autores à cena joga luz sobre a singularidade do trabalho desenvolvido por Inhotim. A instituição, na prática, vem se constituindo como um museu contemporâneo de arte e não simplesmente como um museu com acervo de arte contemporânea.

    INTERPELAÇÃO Com pensamento e a criação de uma estrutura física, o Inhotim vem aprofundando um modo específico de apresentar trabalhos importantíssimos dos últimos 50 anos, sem “trair” o que eles têm de essencial: uma poética de interpelação de todas as convenções artísticas, que redefiniu o que entendemos como arte. Essa postura alcança uma proeza: dar vida, potência, vibração à arte que, ousadamente, é e quer ser diferente. São criações de autores que, às vezes, até estão nos museus de arte contemporânea (mas não com seus trabalhos e ideias mais ousadas), ou cobertos pela poeira de museografias (e visões históricas) convencionais, o que tinge as criações de uma melancolia que não é delas.

    As inovações de Inhotim, em todos os aspectos, trazem um problema que merece ser registrado: acostumados aos prazeres trazidos pelas mostras realizadas em Brumadinho, em condições que provaram ser as ideais para a boa fruição da produção de arte contemporânea, como se acostumar (ou voltar) a arquiteturas tradicionais dos museus? E ainda: será que dá para fruir obras que pedem mais do que apenas empatia ótica, em ambiente tão congestionado (de tudo), como o Centro da cidade, por exemplo, às 18h de um dia de semana?

    Por enquanto, a resposta a essas perguntas, especialmente à última, é: respire fundo e paciência. Veja (e reveja) a exposição com calma, com catálogo na mão, lendo textos e créditos nas paredes, aspectos que também são essenciais no padrão de excelência estabelecido por Inhotim.

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