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  • 28 de dezembro de 2015

    Redação Inhotim


    Leitura: 5 min

    Restrospectiva 2015: Jovens Agentes Ambientais Inhotim

    JAA Brasil _ William Gomes

    O programa Jovens Agentes Ambientais foi inicialmente criado para democratizar o acesso a técnicas de jardinagem e cultivo do solo. Ao longo dos anos o projeto se desenvolveu e passou a ter projeções ambiciosas no campo da educação e hoje aspira à formação de protagonistas juvenis para a sustentabilidade e cuidado com o meio ambiente. Essa transformação fez com que o rol de conteúdos a serem discutidos aumentasse em quantidade e diversidade. Para tornar possível essa empreitada, em 2015 foi inaugurado o formato anual de realização do projeto: uma única turma de 25 jovens provocados a repensar a nossa relação com o meio ambiente e, por que não, com o nosso próprio futuro.

    No início de 2015 escrevi, aqui no blog do Inhotim, que “Como educadores, desejamos provocar o jovem a se perceber protagonista da sua própria experiência no lugar onde vive. Entendemos que são muitas as oportunidades que temos de mudar a relação entre homem e ambiente, por isso exercitamos a habilidade de identificá-las e de atuar sobre elas em qualquer escala.” A partir desta convicção, começamos o ano propondo ao grupo uma reflexão sobre rótulos das embalagens dos produtos que comumente consumimos. Descobrimos o símbolo dos transgênicos estampado na caixa de chicletes e pelos jornais soubemos que, naquele mesmo momento, a Câmara dos Deputados discutia a aprovação do projeto de lei 4148/08, que dispensa o alerta nos rótulos de mercadorias que tenham em sua composição elementos geneticamente modificados. O projeto foi aprovado. Nós, por outro lado, temos ainda nossas dúvidas e continuamos na busca por novos caminhos.

    Uma vez que, como grupo, estávamos convencidos de que é preciso transformar a relação que estabelecemos com os recursos que a natureza nos oferece, percebemos a necessidade de exercer um outro papel: o de comunicar e sensibilizar. A partir de então, visitamos bairros e distritos de Brumadinho, conhecemos os desafios cotidianos de outras famílias e pudemos atestar que ainda existe espaço para o diálogo. Fomos muito bem recebidos pela comunidade dos Pires, que plantou as mudas de algumas espécies medicinais que cultivamos e levamos até lá, bem como aceitou o convite para uma ampla discussão sobre cuidado, cooperação e transformação.

    Com isso, aprendemos que ter voz requer muita responsabilidade. Ainda assim, ou exatamente por isso, desejávamos falar mais e mais alto. Desse desejo então nasceu a Coluna Jovens Agentes Ambientais, nosso espaço no jornal local. Nela, temos a chance de dar vazão às pesquisas e descobertas que ocorrem durante os nossos encontros, dar evidência a assuntos pouco discutidos ou contraditórios, ativar novas redes de colaboração.

    Durante toda essa caminhada não perdemos de vista o fato de que estamos vivendo um momento chave para a definição do nosso próprio futuro. As estatísticas e as projeções dos cientistas sobre o destino do nosso planeta são alarmantes, muitas vezes a ponto de nos paralisar. Mas a estagnação não é, para nós, uma opção. Conscientes de que é urgente fazermos escolhas mais saudáveis com relação aos nossos hábitos de consumo, seguimos em frente sempre em busca de alternativas que nos façam reaprender a estar no mundo sem destruí-lo.

    Artigo escrito pela supervisora de Educação, Lília Dantas.

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    16 de dezembro de 2015

    Alvaro Machado

    Repórter da revista Carta Capital


    Leitura: 4 min

    A casa de terra

    A casa de terra

    Crédito da foto: Alvaro Machado

    Ao observar os tijolos que recobrem as paredes  externas do belo edifício de 1.600 m2, vinte ianomâmis levados da aldeia Toototobi (Roraima) a Brumadinho (MG) para a inauguração da Galeria Claudia Andujar, no Instituto Inhotim, em fins de novembro de 2015, apelidaram-na “A casa de terra”. O edifício abriga mais de 400 fotos da artista suíço-brasileira, tomadas sobretudo nos anos 1970 no território da etnia, demarcado em 1992. Foi realizado ao custo de R$ 12 milhões, com patrocínio do Banco Santander e a parceria de Arquitetos Associados, escritório belo-horizontino responsável por pavilhões como o do também fotógrafo Miguel Rio Branco, ligado à Galeria Claudia Andujar também por agradável trilha sombreada. A fração de 0,1% do contingente ianomâmi brasileiro – hoje com cerca de vinte mil indivíduos, não contadas as aldeias venezuelanas –, aprovou o pavilhão, a par de julgar as “imagens não-falantes” uma “coisa morta”. Os índios sabem que as fotos magnificadas em ampliações gigantescas servirão à preservação de seu modo de vida por mais algumas décadas e para combater males como os garimpos ilegais. Apenas no rio Apiaú, são contadas atualmente setenta balsas mineradoras.

    Nos cinco dias da estada mineira, os índios regalaram-se com o bufê do Tamboril, o exclusivo restaurante local, a aceitar pela primeira vez comensais de torso nu, e conheceram alguns dos agora 19 pavilhões do parque. Foram vistos a rir incontidamente à saída da Galeria Cosmococa de Hélio Oiticica, reflexão sobre o pó consumido via nasal por não-índios, à maneira de sua iakoana, soprada com zabaratana nos narizes dos pajés.

    A pajelança de inauguração, no último dia 26, foi praticada com todos os elementos do ritual. Foi usada a iakoana, mistura de pós vegetais que, aspirada, facilitaria a comunicação com os espíritos, para o espanto e a hilaridade de parte do público presente. O pajé “jovem”, assim apresentado pelo líder Davi Kopenawa aos convidados, lembrava em seus movimentos os tradicionais intérpretes do milenar teatro Nô japonês em cenas de lutas com espíritos invisíveis.

    Fruto de cinco anos de trabalho de Andujar ao lado do curador Rodrigo Moura, diretor artístico de Inhotim, a galeria Claudia Andujar divide-se em quatro blocos. Eles intensificam, inicialmente, a materialidade da natureza amazônica, até alcançar seu oposto espiritual; consagram a harmonia do cotidiano indígena e sua sabedoria, tão rica como despojada; flagram a vulnerabilidade indígena, advinda sobretudo do contato com o branco, como na série Marcados; exibem uma valiosa coleção de 94 desenhos feitos pelos índios a pedido da fotógrafa, nos anos 1970, com visões interiores de sua cosmologia; e, finalmente, mostram a área ianomâmi já em 2010, com o olhar atento de Andujar a certa descaracterização. As dinâmicas estabelecidas entre as imagens e os espaços generosos, algo como um museu inteiro destinado a um único artista, lançam a obra da fotógrafa a novo patamar.

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    01 de dezembro de 2015

    Redação Inhotim


    Leitura: 5 min

    Que lugar é esse?

    Que lugar é esse?

    Entre os dias 1º e 5 de dezembro, o Inhotim recebe a artista israelense Ofri Cnaani para realizar um trabalho inédito no Parque, as performances “Que Lugar é Esse?” e “Recalculate Root”. Inspiradas na experiência da artista como mediadora de visitas em museus da cidade norte-americana de Nova York, as ações pretendem transformar a visita de quem passa pelo Parque tendo funcionários do Instituto sem formação em arte como mediadores de visita ou até mesmo um celular. Essas são as formas da artista questionar a necessidade de conhecimento acadêmico para interpretar a arte.

    A primeira performance foi realizada pela primeira vez em julho de 2015, no Museu de Israel, em Jerusalém. “Desenvolvi uma sensibilidade pela maneira de contar histórias e tive interesse em analisar essa atividade como uma expressão artística”, explica Cnaani. Antes da apresentação, ela vai capacitar 35 funcionários de diversas áreas do Instituto, como jardinagem, recepção e transporte interno. Ofri Cnaani tem 40 anos e, atualmente, mora em Nova York, onde é professora da Escola de Artes Visuais e do Centro Internacional de Fotografia.

    “O conteúdo gerado na performance não destaca somente os acervos, mas, sim, o trabalho desenvolvido pelos participantes. Essa é uma forma de desafiar o saber sobre arte”, enfatiza Cnaani. Segundo ela, a iniciativa de realizar a atividade no Inhotim surgiu de uma visita ao Instituto, há um ano. A artista percebeu várias formas em que o conhecimento é gerado e transformado pelos mediadores do Parque e entrou em contato com os educadores do Inhotim.

    Para a gerente de educação do Instituto, Yara Castanheira, a performance atende aos desejos da Instituição. “A proposta de oferecer ao visitante uma experiência única com o acervo está na essência das nossas ações educativas”, explica. Enquanto para o público essa é a oportunidade de ter um contato diferente com o Parque, para os funcionários é a chance de compartilhar experiências pessoais com o público, fortalecendo a relação de pertencimento à Instituição.
    Depois da capacitação com a artista, os funcionários serão estimulados a criar um trajeto pelo Parque, a partir de 10 perguntas que, geralmente, não são feitas pelos visitantes. Relatando suas próprias experiências, eles realizam a visita mediada com uma pessoa por vez, contando suas interpretações dos acervos do Inhotim. O workshop com os funcionários acontece nos dias 1º, 2 e 3 de dezembro e a performance, nos dias 4 e 5.

    Na segunda ação, a ideia da artista israelense Ofri Cnaani é usar o celular para propor uma outra forma de visitar Inhotim. Durante uma hora, os visitantes receberão mensagens de seis em seis minutos pelo celular  com sugestões de como interagir com o Parque. As mensagens contêm dicas que podem ser interpretadas de diversas formas. “As dicas que irei enviar são ambíguas, propondo um significado sobre o espaço e outro sobre si próprio. Quando digo pra pessoa “se perder”, por exemplo, ela pode tanto se perder pelos jardins como se perder em pensamentos”, explica. Cada participante deverá registrar por meio do próprio celular uma imagem que descreva a experiência vivida após cada orientação. “As imagens vão me mostrar o ponto de vista deles, como cada um recebeu e interpretou as mensagens”, diz.

    SERVIÇO
    Performance “Que Lugar é Esse?”

    A performance “Que Lugar é Esse?” foi inspirada na experiência da artista como mediadora de visitas em museus de Nova York. A ação pretende transformar funcionários do Instituto Inhotim sem formação em arte em mediadores de visita. É uma forma de questionar a necessidade de conhecimento acadêmico para interpretar a arte.
    Data: sexta-feira, 04 de dezembro.
    Horários: das 11h às 12h e das 14h às 15h.
    Local: Tamboril

    Performance “Recalculate Rout”
    Recalculate Rout é uma performance que usa um aplicativo de celular para incentivar o visitante a percorrer um caminho através de chamadas ou mensagens. O objetivo é proporcionar uma outra experiência de visita em locais familiares ou não, sejam cidades ou museus.
    Data: sábado, 05 de dezembro
    Horário: 14h
    Local: Estação Educativa

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    11 de novembro de 2015

    Redação Inhotim


    Leitura: 6 min

    Inhotim inaugura Galeria Claudia Andujar

    Inhotim inaugura Galeria Claudia Andujar

    Em novembro de 2015, o Instituto Inhotim inaugurou sua 19ª galeria permanente, dedicada ao trabalho da fotógrafa Claudia Andujar, nascida na Suíça e radicada no Brasil desde a década de 1950. Patrocinado pelo Santander, o pavilhão de 1.600 m² é o segundo maior do Parque e exibe mais de 400 fotografias realizadas pela artista entre 1970 e 2010 na Amazônia brasileira e com o povo indígena Yanomami. Andujar viveu temporadas na região e realizou diversas visitas posteriores. Ao longo dos anos, registrou o ambiente, as tradições e o contato dos índios com o homem branco.

    Dividida em quatro blocos, a galeria é resultado de cinco anos de pesquisa da curadoria do Inhotim em conjunto com Andujar no arquivo da artista. Grande parte das fotografias é inédita, como as séries Rio Negro (1970-71) e Toototobi (2010), esta última realizada durante uma assembleia da Hutukara Associação Yanomami. Mesmo as imagens mais conhecidas da artista foram organizadas em séries amplas, que combinam fotografias icônicas a outras nunca antes ampliadas. Também é possível ver o maior conjunto já exibido dos registros que compõem Marcados. Trabalho mais reproduzido de Andujar, foi elaborado a partir de fotos feitas por ela para os cadastros de saúde utilizados pelas equipes de vacinação da região, numa tentativa de proteger os índios da dizimação por doenças até então desconhecidas por eles, como sarampo e poliomielite.

    Para o diretor artístico do Inhotim e curador da mostra, Rodrigo Moura, Andujar está entre os raros artistas que conseguem, de forma poética, atribuir engajamento ao trabalho artístico. “A singularidade e a potência da trajetória de Claudia Andujar vêm da construção de um trabalho com um poder efetivo de intervenção no real, porém feito de costas para o sistema de arte do Brasil. De certa maneira, seu trabalho diz que esse encontro com outro, essa busca da arte para a constituição da identidade, tanto do autor quanto daquele que é fotografado, só é possível se dar fora de um sistema codificado e de interesses imediatos, como mercado e celebridade. Essa visão ética é uma fonte de inspiração para as novas gerações”, avalia.

    Além das fotografias, fazem parte da mostra publicações de época, livros da artista e o documentário “A estrangeira”, produzido pelo Inhotim com direção de Moura. A partir de quatro entrevistas, realizadas em São Paulo, no Instituto e na aldeia Demini, no Amazonas, o filme conta a trajetória de Anjudar, desde a infância tumultuada pela Segunda Guerra Mundial até o envolvimento com os Yanomami e a causa indígena.

    Claudia Andujar, Sem título, da série Catrimani, 1971.

    Claudia Andujar, Sem título, da série Catrimani, 1971.

    Projeto Arquitetônico

    Com 1.600 m², a Galeria Claudia Andujar é o segundo maior espaço expositivo do Inhotim e é dividida em quatro prédios, que recebem blocos da exposição. O projeto é assinado pelo escritório Arquitetos Associados, de Belo Horizonte/MG, parceiro recorrente do Instituto. São eles os responsáveis por construções premiadas do Parque, como a Galeria Miguel Rio Branco e o Centro de Educação e Cultura Burle Marx. A construção da Galeria Claudia Andujar se deu com o apoio do Banco Santander.

    Sobre a artista

    Claudia Andujar nasceu na Suíça, mas durante a infância e a adolescência morou em diversas cidades, fugindo da perseguição nazista que enviou seu pai e tantos outros para os campos de concentração. Em 1955, após nove anos em Nova York, mudou-se para o Brasil. Aqui, iniciou sua carreira como fotógrafa e trabalhou para diferentes publicações nacionais e estrangeiras, como as revistas Claudia, LIFE, e The New York Times Magazine.

    Claudia Andujar acompanhou de perto a construção da Galeria que leva o nome dela. (Foto: Rossana Magri)

    Claudia Andujar acompanhou de perto a construção da Galeria que leva o nome dela. (Foto: Rossana Magri)

    Em 1970, foi enviada à Amazônia pela revista Realidade para trabalhar em uma edição especial sobre a região. Durante a viagem teve seu primeiro contato com os Yanomami, experiência que a marcou para sempre. A informalidade da vida cotidiana na floresta, a curiosidade e a vontade de compreender o outro e a si mesma fizeram com que Andujar se envolvesse profundamente com a questão indígena no Brasil e sua atuação foi fundamental para a demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 1992.

    “Ter esse pavilhão em Inhotim significa entrar para a eternidade com meu trabalho dos Yanomami. É importante que pessoas de qualquer parte do mundo, dos lugares mais remotos, conheçam os Yanomami. Saibam que eles são seres humanos, que fazem parte do mundo e que têm de ter acesso a sua cultura para sobreviver”, comenta Andujar.

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    27 de outubro de 2015

    Redação Inhotim


    Leitura: 10 min

    Laboratório Inhotim desvenda Porto Alegre

    Laboratório Inhotim desvenda Porto Alegre

    Foram três dias de reflexões e descobertas em Porto Alegre, cidade que abriga a 10ª Bienal Mercosul. Os nove jovens do Laboratório Inhotim desembarcaram na capital gaúcha na última sexta-feira, dia 23 de outubro, junto à equipe educativa do Instituto para conhecer a cidade e visitar os centros culturais que reuniram obras de cerca de 200 artistas latinos. A viagem faz parte de uma das atividades desenvolvidas no programa, na qual cada jovem escolheu um artista latinoamericano que tivesse obras expostas no Inhotim para realizar pesquisas ao longo dos últimos meses.  O fim de semana prolongado incluiu passeios turísticos no centro-histórico da cidade, almoço típico gaúcho, chimarrão, e visitas mediadas em importantes museus. Durante o passeio, os jovens tiveram a chance de conhecer trabalhos de alguns artistas estudados em um outro contexto diferente do Inhotim, além de aplicar todo o conhecimento desenvolvido nos encontros no Parque para entender e sentir outras obras antes desconhecidas. Confira aqui o depoimento de duas integrantes do programa sobre o sábado e o domingo, dias dedicados exclusivamente à arte em Porto Alegre.

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    Para Rafaela, foi emocionante ver na Bienal obras que antes só conhecia pela internet. Foto: Laura de Las Casas.

    Rafaela Hermenegilda Bollis Silva, 16 anos:
    “Neste sábado, acordamos cedo para ir ao Museu do Rio Grande do Sul (Margs), que esta acolhendo uma parte da Bienal. Lá tivemos a experiência de ver vários artistas, alguns que já conhecíamos e outros novos. Conversamos  com os mediadores não somente sobre as obras, mas também sobre a cidade e sobre costumes gaúchos. Isso fez a visita ainda mais leve. Uma das primeiras coisas que eu vi foi o Parangolé, de Hélio Oiticica. Fiquei animada porque eu estou estudando ele no Laboratório, mas nao gostei muito de saber que, por tentativa de estar preservando a obra, ela foi toda perimetrada para que ninguém encostasse. O trabalho de Hélio, de acordo com meus estudos, foi feito para provocar interação com o publico. Eu entendo que seja uma relíquia, já que ele morreu, mas isso me causou um certo estranhamento. Quando escolhi o Oiticica para estudar aprendi bastante sobre o neoconcretismo, que é um conceito recente na arte contemporânea. Nestes trabalhos, o visitante deixa de ser somente espectador para ser participador. O Hélio foi um dos pioneiros nisso. Aqui na Bienal eu vi alguns trabalhos dele e fiquei bastante feliz, porque é diferente quando a gente olha algo e entende, sabe de onde veio e o que significa. Foi muito bom conversar com os mediadores sobre o meu incomodo, e compartilhar com eles o que eu já conhecia sobre a obra.

    Depois do almoço, fomos à Usina do Gasômetro para ver mais sobre a Bienal. Fizemos uma visita mediada e, primeiro, aprendemos um pouco sobre a história da Usina, que é um importante ponto turístico da cidade. Entendemos um pouco sobre a transformação do espaço. Essa foi a parte mais legal do dia pra mim. Tinha mais Hélio Oiticica lá, uma obra importante dele, que eu só conhecia pela internet, chamada Tropicália.  Ela parece um labirinto construído com uma arquitetura improvisada. Achei muito linda a forma como ele coloca as cores e as palavras que remetem às cores. É uma característica muito forte dele: cores fortes. Já no segundo andar, uma exposição inteira abordava o cheiro na arte. Tinha uma obra da Lygia Pape que eu também já tinha pesquisado e me deparar com aquilo que eu só tinha visto pela internet é uma emoção muito grande, principalmente porque é uma obra que podemos provar. Isso é incrível. Também tinha ali uma cama de feno na qual a gente podia deitar. Eu sei que o feno era usado antigamente para fazer cama, então deitar ali era como sentir como nossos ancestrais sentiam,  algo que eu faria tranquilamente, se eu precisasse dormir no feno por uma noite. O que mais me chamou a atenção no Gasômetro é que podíamos interagir com as obras, muitas neoconcretistas. No Margs, elas são, na minha opinião, mais usadas para mostrar o contexto histórico da qual ela faz parte.

    A ideia da Bienal, pelo que eu vi e senti, é lembrar o antigo e mostrar coisas novas. É uma feira de arte, mas sem vender, só pra olhar e admirar. E é importante visitar pra gente poder entender que existem várias formas de expor a arte, seja em um quadro, dentro de um museu ou em uma praça, ela cabe em tudo. E eu ainda terminei o dia tomando chimarrão. Quero morar aqui quando eu fizer faculdade de história da arte!”

    Milene viu a obra de Iberê Camargo ganhar ainda mais sentido depois que conheceu a história de vida do pintor. Foto: Laura de Las Casas

    Milene conheceu obras de artistas novos durante a Bienal Mercosul e se encantou com a arquitetura da cidade. Foto: Laura de Las Casas

     Milene Raissa Paraguai, 15 anos:
    “Eu estudei, durante os últimos meses no Lab, a obra “A luz de dois mundos”, do artista Tunga. O trabalho dele é muito diferente, e permite que cada um tenha uma percepção própria. Não tem muito como definir, e estudar ele me ensinou que arte não tem definição. Então eu trouxe isso comigo pra Bienal, esse meu olhar sem querer definir muito as coisas. Domingo foi um dia  interessante porque a gente conheceu o Instituo Ling e a Fundação Iberê Camargo. No instituto, vimos uma parte da bienal. É um lugar muito bonito.  Já na fundação, vimos obras do próprio Iberê e de outro artista que não conhecíamos, o Abraham Palatnik. Os mediadores foram muito cuidadosos com a gente, nos mostraram os lugares que eles usam pra oficinas, e nos contaram sobre a história de vida do Iberê. Isso foi bastante proveitoso, porque ele é um artista que trasmite emoção nas obras, transmite sentimento, e quando conhecemos mais sobre ele, os quadros e os traços fazem mais sentido.  O que eu acho bonito na arte é que ela tem significados diferentes para cada um. Quando olhei para o quadro da bicicleta, do Iberê, fiquei pensando que se a gente não reagir pra nada, ficar parado no mesmo lugar, não vamos sair dali nunca. É como se a gente tivesse parado em um parque, e os nossos amigos na bicicleta andando. E se a gente nao sair daquela inércia de ficar parado esperando tudo, a gente vai ficar imóvel e nunca vai ser alguém. Isso me impactou e me fez pensar.  Os educadores do museu também falaram sobre o processo de criação dele, foram acolhedores, tiveram paciência, deram espaço pra perguntar, pra  gente falar o que sabia e se sentir a vontade.

    Essa chance de viajar para um outro lugar e ter esse contato com o novo é muito importante. No Inhotim,o acervo é grande, mas aqui tem coisas diferentes, e é bom demais poder sentir isso e não ficar preso ao nosso mundo. Viajar assim nos traz novas ideias. Pra mim, a maior e melhor ideia que surgiu nesses três dias em Porto Alegre foi a de estudar arquitetura. Fiquei olhando para os lugares que fomos e percebendo esse contraste  colonial com a arquitetura contemporânea, prédios contorcidos, altos baixos, uma mistura. O prédio do Iberê Camargo, por exemplo,  talvez se tivesse sido feito na época da minha vó, seria impressionante, e agora eles se misturam, e isso é fantástico. A viagem me trouxe também uma nova forma de ver a arte, não só presa a coisas físicas, mas também ao cheiro, ao gosto e todos os outros sentidos.”

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    A obra de Hélio Oiticica chamou a atenção dos jovens durante a visita ao Margs pelo colorido característico adotado pelo artista. Foto: Laura de Las Casas.

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