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Carta a Amilcar de Castro

Amilcar,

Finalmente fui ver tua exposição na Praça da Liberdade. Como deve ter lhe contado o Affonso Ávila, aquilo virou uma procissão de centros culturais, um corredor ou algo assim. Naquele de um banco, fizeram agora uma mostra com as tuas coisas. Eu confesso que custei para encontrar as salas todas, mas quando achei meu caminho dentro das galerias, ouvi tua voz de novo no meu ouvido, aquele som de trovão que me mostrou o caminho há quase duas décadas. Talvez você não ficasse tão incomodado quanto eu fiquei com as paredes coloridas – afinal, você sempre falava que aquelas tuas cores não eram de fato cores no sentido pictórico, mas informação cromática gráfica. Talvez você conseguisse me explicar por que a exposição não tem trabalhos históricos, como se você não precisasse deles mesmo depois de mais de dez anos da tua morte. E por que tem trabalhos de poucas coleções, todas em Minas, e por que a nem um museu foi pedida uma escultura tua – penso pelo menos na Pampulha, logo ali, a quem você doou peças tão bonitas e importantes, mas o MAM do Rio é igualmente aquinhoado. E talvez você me respondesse, um pouco sério e um pouco irônico, que não fosse esta parcialidade seria outra. Que tudo é mesmo relativo neste mundo. Nunca me esqueço de quando te encontrei em Vitória, onde fui para apenas ver tua exposição, uma exposição deslumbrante, e você me perguntou: “você veio aqui só pra isso”? Você estava falando sério? Nunca saberei.

Andar por aquelas salas hoje me renovou o contato contigo, e o que mais se pode pedir de uma exposição? Não ignoro que quando te perdemos você vinha de alguns dos anos mais prolíficos de tua obra, mais geniais, mas eu duvido que houvesse sido diferente décadas anteriores. Por esta exposição, dificilmente saberemos. Mas, que diabo, você odiava a ideia de mudança. Me lembro das muitas vezes que te liguei para comentar uma exposição tua, ou uma obra nova, e o pavor com que você sempre me demovia da ideia de algo pudesse ter mudado ali. Madeira? É mesma coisa do cor-ten. Vidro? Já fazia nos anos 1950. Inox? Fez em Nova York. Cor? Eu já não sabia? Nesta exposição, quase tudo do fim dos 90, eu revi as mais lindas madeiras (quase 100) e conjuntos expressivos de corte e corte e dobra, principalmente em escala pequena, que é o que dá pra fazer ali. As esculturas maiores, numa das salas, fazem tanto pelo nosso corpo, e eu quase havia me esquecido, cansado de vê-las em fotografias. Tua obra de gravador (que você dizia que era só outra maneira de desenhar) está tratada com rara seriedade, foi um prazer constatar. Mas talvez tudo, na vida, não passe de mais uma maneira de desenhar. Ou, para mim, de escrever. E eu ainda quero te ver escrutinado, datado, sintetizando o Max Bill antes de todo mundo, em 1953, fundamental, vital, central no fermento neoconcreto, do tamanho daquelas que tinham em você um par do mesmo tamanho do deles. Esta vez virá ou eu seguirei esperando, até que talvez eu mesmo a faça. A diferença entre  escala e tamanho, me parece, é uma das tuas grandes lições – e como são monumentais aquelas esculturas pequenas, são cheias de imaginação, e como trazem uma ideia de duração que é tão libertadora dos dogmas, sedutoramente falsos, da arte de bula.

Descendo as escadas, o prédio velhusco, Belo Horizonte vestida de São Paulo, não estava imune a você, e as forjas, os estucos e os vitrais cantavam a tua presença e se orgulhavam na tua companhia. No lado de fora, o mundo, na saída, não estava imune a você. E cada ângulo reto, cada encontro de vidro e concreto, cada empena modernista, Minas Caixa, Ipsemg, rua Goiás, papelaria Carol, existia desta maneira eterna que o teu trabalho existe. Depois de ti, nunca estaremos indiferentes à forma.

Numa das últimas vezes que nos falamos, você me disse que estava feliz com aquela tua última exposição na Pinacoteca. Escrevendo pro jornal, eu te citei então: “Não acho ruim, me dá prazer fazer. Gostei de como está ajeitado”. Como eu disse na época: parece simples. Continua não sendo.

O carinho agradecido de apenas mais um dos teus alunos,

Rodrigo

Belo Horizonte, 14 de dezembro de 2013



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