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A arte tragicômica de William Kentridge

A arte tragicômica de William Kentridge

I’m not me, the horse is not mine, obra do artista sul-africano William Kentridge, é destaque nas exposições temporárias do Inhotim. Exposta desde outubro de 2015 no Galpão, espaço preparado para receber obras de grandes dimensões no Instituto, o título da instalação em vídeo faz referência a uma expressão utilizada pelos camponeses russos para negar a responsabilidade de algo. As projeções são um fragmento do que o artista produziu enquanto preparava a sua versão da ópera O Nariz, de Dmitri Shostakovich para o New York’s Metropolitan Opera exibida em março de 2010.

A obra de Kentridge é composta por oito projeções com cerca de seis minutos de duração que ficam em loop constante. O público pôde conferir a vídeoinstalação pela primeira vez na Bienal de Sidnei em 2008, posteriormente no MoMA de Nova York em 2010 e no Tate Modern de Londres entre os anos de 2012 e 2013, até a chegada ao Inhotim em 2015.

O Nariz é um conto clássico da literatura russa. Escrito entre 1835 e 1836 por Nikolai Gogol, inspirou Shostakovich a compor a ópera homônima em 1927. A sátira narra um homem que acorda de manhã e percebe que seu nariz desapareceu, ele sai à sua procura e quando o encontra, nota que o nariz é hierarquicamente superior ao seu dono. Depois de vários encontros, eles acabam reunificados.

William Kentridge, por meio da arte e do humor, faz intervenções sobrepondo um nariz nas imagens de arquivo e registros históricos. Ele ainda utiliza linguagens como performance, colagens, desenhos em carvão e principalmente stop motion, para falar da vanguarda russa, como o cinema de Vertov, a arquitetura da torre de Tatlin ou o movimento suprematista de Malevich. É possível identificar alguns nomes históricos como o de Stalin, líder da União Soviética e o da bailarina Anna Pavlova, ícone do balé russo.  As referências utilizadas pelo artista são muitas. A cada novo loop das projeções é possível relacionar a obra a fatos históricos do regime totalitário russo.

As projeções espalhadas pelo Galpão contam a história do conto "O Nariz" de maneira tragicômica, traço frequente nas obras de Kentridge. Foto: William Gomes.

As projeções espalhadas pelo Galpão contam a história do conto “O Nariz” de maneira tragicômica, traço frequente nas obras de Kentridge. Foto: William Gomes.

A trilha sonora original, parte importante da instalação, foi composta por Phillip Miller, parceiro de Kentridge em diversos projetos desde Felix in Exile de 1994. Miller gravou trechos do coro da Igreja em Johannesburg e usou o ritmo como base, mesclando as gravações com a música de Shostakovich de forma indireta, como se fosse uma colagem.

William Kentridge apresenta uma montagem única do seu olhar, na qual a arte é capaz de se apropriar de forma tragicômica da história e das linguagens, mesclando o interesse pela Rússia com suas próprias referências de seu país de origem.

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