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  • 03 de junho de 2015

    Rodrigo Moura

    Curador e diretor de Artes e Programas Culturais do Inhotim


    artecosmococainhotimmúsica

    Leitura: 8 min

    Juliana Perdigão, uma cantora de mil faces

    Juliana Perdigão, uma cantora de mil faces

    Em 2011, a jovem cantora Juliana Perdigão, uma amiga nova, me convidou para escrever um texto sobre seu primeiro disco, Álbum desconhecido (você confere o texto abaixo). Desde então começamos um intenso diálogo sobre música, arte e vida, que incluiu a possibilidade de um show em Inhotim, dentro da faixa de programação do Inhotim em Cena dedicado a novos artistas brasileiros. Este show acabou se tornando um espetáculo comissionado, a partir do universo estético e do repertório musical de um dos nossos pavilhões permanentes mais importantes, a Galeria Cosmococa, dedicada à obra de Hélio Oiticica e Neville d’Almeida. O show acontece no teto da galeria, nos dias 6 e 7 de junho, às 15h.

    As obras da galeria foram criadas pelos artistas em Nova York, quando os dois viveram intensamente a cena underground na cidade, e trazem trilhas sonoras pensadas especialmente para  as instalações audiovisuais. Jimi Hendrix, John Cage e Yoko Ono, heróis da contracultura e vanguarda americana, surgem ao lado de Luiz Gonzaga e Yma Sumac, referências brasileira e sul-americana. A partir do trânsito entre registros do samba à vanguarda, Juliana abarca uma perspectiva pós-tropicalista (Macalé e Tom Zé, Zé Celso e os Campos, passando por compositores emergentes, como Negro Léo e Ava Rocha) para compor seu próprio repertório. As apresentações marcam o retorno de Juliana aos palcos mineiros, depois de uma temporada se apresentando em São Paulo, onde além de estrear a banda nova e se preparar para um novo álbum solo, atuou como instrumentista e atriz em três espetáculos do Grupo Oficina. É imperdível.

    O show foi inspirado na arte de Hélio Oiticica e acontece no teto da Cosmococa.

    O show foi inspirado na arte de Hélio Oiticica e acontece no teto da Cosmococa.

    Texto de amigo é problema. O primeiro problema é a demora. Você pede o texto e o sujeito diz, claro, e passam-se dois, quatro, seis meses e você com o disco, o  livro, a exposição na boca do forno e nada do texto. O segundo problema é quantas vezes você se encontra com o amigo no meio do processo e falam, entre desinteressados e desesperados, sobre o assunto: mas sobre o que? vai ser o texto. De que? vai falar?  E será? que fica pronto. E o amigo com cara de paisagem. Inútil paisagem. Então, por isso, sem mais delongas, Juliana Perdigão, aqui vai o texto que te prometi. Lembro da primeira vez que te vi, que deve ter sido apenas a primeira que eu me lembro. Na nossa cidade nos vemos muitas vezes antes de acenarmos uns aos outros com a cabeça. O endereço era uma cobertura que eu ocupava preguiçosamente na Rua Santa Rita Durão e o ensejo, não poderia ser mais oportuno, o Natal. Você me visitou e cantou, como uma gata vadia, na cozinha daquele apartamento enquanto eu fatiava verduras distraído. Daí eu me lembrei de ter te visto cantando, meses antes, com tantos amigos em comum, num palco qualquer. Daí eu vi que você simplesmente canta, verbo intransitivo. Não faz muito caso disso, mas quando canta a gente te escuta, verbo transitivo. Daí me lembrei que você também toca o clarinete e, talvez por isso, cante sem fazer tanto caso ou drama disso, acostumada a emitir sons audíveis da região da face. No final te levei no elevador e te disse que curtia teu jeito de cantar. Você sorriu meio tímida e a porta fechou. E desde esta noite a nossa conversa se projetou não apenas para o futuro mas também para trás. Em infinitas varandas, revelamos lembranças em comum, esfrangalhadas mas existentes, de músicas e noites na nossa cidade. Do Squat à Fundação. Ou seria o contrário? Quem lembra sabe. Daquela noite até o teu disco, descobrimos nos conhecer desde sempre. É desta eternidade, Juliana, que eu queria te falar nesta carta.

    Pra mim, o divórcio que houve entre a música e o cotidiano brasileiro – era pra falar canção popular e classe média, mas passa assim também – é irreversível. Por isso eu só posso acreditar na música no presente. E cantar o passado é, muitas vezes, viver o presente. Por isso em rodas de sambas gastamos os nossos melhores anos. E você, com teu Álbum Desconhecido, de título inspirado e colaborações mais do que elevadas (este texto escusado), tange justamente este problema, “coisa nossa”, ao elencar autores, em sua maioria, desconhecidos e novíssimos. Música feita da matéria presente, do tempo presente. Esta tua eleição está bem porque no tempo de hoje nos projetamos no passado. E só vamos honrar o nosso “passado de glória”, o nosso “samba tradição”, se colocarmos um “objeto não identificado” no meio da sala. A nossa vingança é poder convidar para a festa dos vivos quem a gente quiser. Só não vale viver do passado. Esta fricção entre o passado e o presente se sente no teu trabalho e no de todos nós que desafiamos a tradição como estagnação. Acompanhei algumas prévias ao vivo deste disco, feito de canções singelas, como você me ensinou, e sei que a diversidade de registros que está aqui não é ecletismo, mas parte da sua personalidade artística. Te vendo cantar no palco, vi uma instrumentista afiada, uma bandleader leal, uma diva mal disfarçada, uma bamba cachaceira, uma intérprete de verdade, na hora de escolher, cantar e dirigir o arranjo. Tais e tão complexas são as tuas mil faces. Mas prometi a mim mesmo despir-me das vestes do crítico para escrever esta carta. O terceiro, último e fatal problema de texto de amigo, Ju, é que não há objetividade que resista a nossa conversa, que já passa de anos e que vai durar muitos mais anos. E, agora, para sempre. Dever cumprido.

    Guarulhos, maio de 2011. R.M.

    Juliana Perdigão e Os Kurva
    Quando: 6 e 7 de junho, às 15h.
    Onde: Galeria Cosmococa.

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    13 de janeiro de 2014

    Rodrigo Moura

    Curador e diretor de Artes e Programas Culturais do Inhotim


    arteexposição

    Leitura: 6 min

    Carta a Amilcar de Castro

    Amilcar,

    Finalmente fui ver tua exposição na Praça da Liberdade. Como deve ter lhe contado o Affonso Ávila, aquilo virou uma procissão de centros culturais, um corredor ou algo assim. Naquele de um banco, fizeram agora uma mostra com as tuas coisas. Eu confesso que custei para encontrar as salas todas, mas quando achei meu caminho dentro das galerias, ouvi tua voz de novo no meu ouvido, aquele som de trovão que me mostrou o caminho há quase duas décadas. Talvez você não ficasse tão incomodado quanto eu fiquei com as paredes coloridas – afinal, você sempre falava que aquelas tuas cores não eram de fato cores no sentido pictórico, mas informação cromática gráfica. Talvez você conseguisse me explicar por que a exposição não tem trabalhos históricos, como se você não precisasse deles mesmo depois de mais de dez anos da tua morte. E por que tem trabalhos de poucas coleções, todas em Minas, e por que a nem um museu foi pedida uma escultura tua – penso pelo menos na Pampulha, logo ali, a quem você doou peças tão bonitas e importantes, mas o MAM do Rio é igualmente aquinhoado. E talvez você me respondesse, um pouco sério e um pouco irônico, que não fosse esta parcialidade seria outra. Que tudo é mesmo relativo neste mundo. Nunca me esqueço de quando te encontrei em Vitória, onde fui para apenas ver tua exposição, uma exposição deslumbrante, e você me perguntou: “você veio aqui só pra isso”? Você estava falando sério? Nunca saberei.

    Andar por aquelas salas hoje me renovou o contato contigo, e o que mais se pode pedir de uma exposição? Não ignoro que quando te perdemos você vinha de alguns dos anos mais prolíficos de tua obra, mais geniais, mas eu duvido que houvesse sido diferente décadas anteriores. Por esta exposição, dificilmente saberemos. Mas, que diabo, você odiava a ideia de mudança. Me lembro das muitas vezes que te liguei para comentar uma exposição tua, ou uma obra nova, e o pavor com que você sempre me demovia da ideia de algo pudesse ter mudado ali. Madeira? É mesma coisa do cor-ten. Vidro? Já fazia nos anos 1950. Inox? Fez em Nova York. Cor? Eu já não sabia? Nesta exposição, quase tudo do fim dos 90, eu revi as mais lindas madeiras (quase 100) e conjuntos expressivos de corte e corte e dobra, principalmente em escala pequena, que é o que dá pra fazer ali. As esculturas maiores, numa das salas, fazem tanto pelo nosso corpo, e eu quase havia me esquecido, cansado de vê-las em fotografias. Tua obra de gravador (que você dizia que era só outra maneira de desenhar) está tratada com rara seriedade, foi um prazer constatar. Mas talvez tudo, na vida, não passe de mais uma maneira de desenhar. Ou, para mim, de escrever. E eu ainda quero te ver escrutinado, datado, sintetizando o Max Bill antes de todo mundo, em 1953, fundamental, vital, central no fermento neoconcreto, do tamanho daquelas que tinham em você um par do mesmo tamanho do deles. Esta vez virá ou eu seguirei esperando, até que talvez eu mesmo a faça. A diferença entre  escala e tamanho, me parece, é uma das tuas grandes lições – e como são monumentais aquelas esculturas pequenas, são cheias de imaginação, e como trazem uma ideia de duração que é tão libertadora dos dogmas, sedutoramente falsos, da arte de bula.

    Descendo as escadas, o prédio velhusco, Belo Horizonte vestida de São Paulo, não estava imune a você, e as forjas, os estucos e os vitrais cantavam a tua presença e se orgulhavam na tua companhia. No lado de fora, o mundo, na saída, não estava imune a você. E cada ângulo reto, cada encontro de vidro e concreto, cada empena modernista, Minas Caixa, Ipsemg, rua Goiás, papelaria Carol, existia desta maneira eterna que o teu trabalho existe. Depois de ti, nunca estaremos indiferentes à forma.

    Numa das últimas vezes que nos falamos, você me disse que estava feliz com aquela tua última exposição na Pinacoteca. Escrevendo pro jornal, eu te citei então: “Não acho ruim, me dá prazer fazer. Gostei de como está ajeitado”. Como eu disse na época: parece simples. Continua não sendo.

    O carinho agradecido de apenas mais um dos teus alunos,

    Rodrigo

    Belo Horizonte, 14 de dezembro de 2013

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    10 de dezembro de 2013

    Rodrigo Moura

    Curador e diretor de Artes e Programas Culturais do Inhotim


    arteinauguração

    Leitura: 3 min

    Risco e poesia

    Risco e poesia

    A chegada das pinturas de Luiz Zerbini a Inhotim, coincidindo com a sala de Juan Araujo e com uma mostra em torno do gênero natureza-morta, evidencia o desejo de mostrar e falar de pintura. Desde a inauguração do pavilhão de Adriana Varejão, em 2008, a pintura não ocupava um lugar de tanto destaque em nossas exposições. Com suas composições intrincadas e referências culturais complexas, as obras figurativas de Zerbini poderiam ser consideradas o ponto focal de sua apresentação na Galeria Praça, reinventando a pintura narrativa – penso na linhagem que vai da pintura religiosa renascentista à pintura histórica do século XIX brasileiro.

    Sua relação com a natureza, entendida como construção do homem, ganha uma relevância especial em Inhotim, onde os limites entre o cultivado e o natural são sempre presentes. Em Mamão Manilha (2012), um mamoeiro resiste num canteiro de obras que inclui uma pintura de Hélio Oiticica. Em Mar do Japão (2010), o contrário: são vestígios humanos que subsistem numa paisagem marinha entrópica. Os quadros geométricos e as colagens-esculturas que completam a sala mostram a inquietude do artista nos últimos dez anos de sua produção. Ao mesmo tempo lenda e exceção entre os pintores brasileiros dos anos 1980, por sua pintura solar, tropical e exuberante, Zerbini acumula 30 anos de arte mostrando que sem risco não há poesia.

    Obras de Luiz Zerbini na Galeria praça. Foto: Ricardo Mallaco

    As obras de Luiz Zerbini podem ser vistas na Galeria Praça. Foto: Ricardo Mallaco

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