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Dançando a arte de Channa Horwitz

Dançando a arte de Channa Horwitz

A abertura da mostra DO OBJETO PARA O MUNDO – COLEÇÃO INHOTIM, no Itaú Cultural, em São Paulo, contou com um momento singelo e poético trazido pela realização de três performances criadas pela americana Channa Horwitz. A apresentação trouxe, através da dança, mais um viés de aproximação entre o público e a obra da artista. Executadas pelos bailarinos da Cia. Sesc de Dança, as performances foram dirigidas pela filha de Horwitz, Ellen Davis.

Ao longo de mais de quatro décadas, Channa Horwitz (1932-2013) produziu uma extensa obra em torno do movimento, do tempo e do ritmo. Baseada na cadeia numérica de um a oito, em seus desenhos, pinturas, filmes, objetos tridimensionais e performances, Horwitz repete e combina cores, linhas e pontos dentro de um rigoroso método por meio do qual o pensamento lógico-matemático possibilita a emergência de conceitos de ordem mais subjetiva, como o acaso e a liberdade. Com suas repetições e segmentações, a artista cria um espaço para a experimentação que envolve corpo e mente e afirma que, para a liberdade existir, é necessário limitar as escolhas.

Sua investigação chega assim ao sistema que denominou Sonakinatography, ou como a ele se referia informalmente, Sonas. Esses desenhos servem como partituras para a interpretação de outros artistas, como músicos, atores e coreógrafos. As performances criadas a partir dessas obras de alguma forma diluem a rigidez do sistema e dão lugar à surpresa e ao desprendimento aos quais a artista se referia e cuja busca era uma constante em seu trabalho, representado na exposição por obras bi e tri dimensionais dos anos 1960 e 1970.

A primeira performance apresentada foi At the tone. Quando as cortinas abriram, vimos quatro bailarinas movendo-se lentamente ao som de uma respiração profunda; seus movimentos unidos a este som lembram as ondas do mar. Esta obra foi realizada pela primeira vez em 1969, em Los Angeles, e traz figurinos feitos por Horwitz baseados na série Quadrados e círculos preto e branco (1967-68). Ao longo dos pouco mais de dez minutos de duração que a peça tem, foi divertido observar os quadrados e círculos se formando e se desfazendo dentro da coreografia, pelos movimentos das bailarinas, ou mesmo através da sobreposição dos desenhos do próprio figurino.

Em seguida, assistimos Poem Opera. Realizada originalmente na Bolonha, Itália, em 1978, é composta por oito roteiros de cerca de 8 metros de comprimento contendo palavras que descrevem qualidades opostas de uma pessoa (jovem/velho, feliz/triste, sonhador/realista), lidos simultaneamente por oito atores. Acompanhadas de um metrônomo, as vozes criam uma cacofonia que destaca as infinitas combinações entre ordem e acaso, a palavra escrita e o movimento no tempo. Depois de um momento, as palavras declamadas em ritmo e entonação rígidos viram uma música e seus significados – inicialmente tão presentes – se diluem no conjunto de vozes.

objeto para o mundo

Combinação entre palavra e movimento ajudam a descrever qualidades opostas de uma pessoa em uma das performances. Foto: Ivson Miranda

 Por fim, vimos Sonakinatography Composition III. A performance mescla dança, luz e som em uma combinação de movimentos e tempos rigorosos, acompanhados de música também executada com base nas partituras de Horwitz. Nessa performance as luzes coloridas projetadas sobre os corpos dos bailarinos, mesmo seguindo um ritmo matemático, acabam por destacar o engajamento com o “aqui e agora” – o “fantasma do infinito” do mundo dos algoritmos se concretiza em cor, luz e movimento durante as performances. Como comentou uma das pessoas do público ao final da apresentação, a união de movimento, cor e luz formou diante de nós uma espécie de alfabeto, algo novo para inspirar nossa observação da obra de Channa Horwitz.

Dança, luz e som são combinados com movimentos rigorosos na terceira apresentação.

Dança, luz e som são combinados com movimentos rigorosos na terceira apresentação.

EXPOSIÇÃO
As obras da artista podem ser vistas na mostra “Do Objeto para o Mundo – Coleção Inhotim”.
Quando: de 2 de abril a 31 de maio de 2015. Terça a sexta, das 9h às 20h. Sábado, domingo e feriado, das 11h às 20h.
Onde: Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149 – São Paulo/SP)
Entrada gratuita.

Indicado para todas as idades.
doobjetoparaomundo.org.br

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