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O templo de Lygia Pape #Ensaio1nfinit0

O templo de Lygia Pape #Ensaio1nfinit0

Assim é (se lhe parece). Por esses caminhos labirínticos da memória, foi justamente o título da peça do italiano Luigi Pirandello que me veio à mente ao ver Tteia 1C pela primeira vez. Para resumir, o autor questiona a existência de uma realidade objetiva, que pode ser interpretada de modo inequívoco, por meio da racionalidade. E isso, para mim, tem tudo a ver com a obra icônica de Lygia Pape — uma das mais arrebatadoras de Inhotim, onde ganhou uma galeria exclusiva.

Inteiramente vedado e geométrico, o prédio é quase um templo: retira o visitante de um mundo exterior, da luz do dia e dos lindos jardins do parque, e leva para um mundo interior, que convoca à introspecção. Na sala completamente escura, está a Tteia: fios dourados dispostos no sentido vertical e perpendicular, iluminados por focos de luz, que, aqui e ali, ressaltam essas formas no espaço. À primeira vista, eles parecem flutuar, ou dissolver-se. O visitante é induzido a circundar a obra, que, gradual e sutilmente, revela novos feixes de luz. A aproximação traz a descoberta de que os fios estão fixos ao chão em plataformas de madeira. Presume-se, então, que também estejam presos no teto, mas o efeito de “dissolução” persiste. Tento seguir o fluxo das luzes e, ato contínuo, elas desaparecem imediatamente diante dos meus olhos. A mudança de perspectiva e a existência breve de cada um deles cria uma inquietação: Tteia sempre esteve aí, ou sou eu que a vejo, de uma dada forma, de um jeito só meu? Assim é, se lhe parece, retomando a afirmação que abre este texto.

Os fios da Tteia ocupam e reinventam espaços, criando volume. Assim, ignoram as fronteiras entre o real e o imaginário. Eis o efeito surpreendente da obra. É como se a linguagem geométrica finalmente saísse do papel e ganhasse vida, existisse de forma singular para cada observador que a contempla. Essa conexão entre o espaço e múltiplas subjetividades, aliás tornou-se uma constante no trabalho de Lygia Pape. Várias Ttéias foram produzidas, de 1977 aos anos 2000, como resultado de suas pesquisas sobre a linguagem geométrica. As instalações marcam o amadurecimento da artista, seu avanço gradual, da ruptura com a figuração, nos anos 50, rumo à tridimensionalidade e à total abstração do espaço, bem como sua transição para trabalhos mais monumentais, que flertam com a arquitetura. Em todas as produções do gênero, ela explorou as mesmas questões: a espacialidade, a luz natural e artificial e os materiais simplórios e potencialmente efêmeros, como o fio de cobre e de nylon. Também abriu caminho à participação efetiva do público, seguindo à risca a cartilha do Neoconcretismo, do qual foi uma das fundadoras.

Uma das mais ativas figuras nessa renovação da arte brasileira, Lygia bebeu nas ideias das vanguardas europeias, interpretando-as ao seu modo. Assim, lançou seu olhar sobre o entorno, marcado por grandes transformações urbanas. Ao transitar de fusquinha pelas ruas do Rio de Janeiro, onde morou praticamente a vida toda, viu a dinâmica da cidade e seu crescimento desordenado, suas pontes e viadutos, a industrialização crescente, a dualidade entre exclusão e inclusão em um lugar que oprime, mas também acolhe e deslumbra. Certa vez, em um depoimento, ela declarou que circular pela urbe se parece com o feitio de uma teia, por uma aranha. Como o animal que produz sua rede de fios para uma dada finalidade, que vai da captura de presas à cópula e ao abrigo, andamos pela cidade criando fluxos próprios. Para Lygia, nesse trânsito elegemos espaços importantes e de afeição, que marcam a experiência humana. Essas reflexões se concretizaram nas Tteias, que, não por acaso, remetem às palavras teia e teteia, que no linguajar do povo, significa algo bonito, gracioso.

No emaranhado de fios e caminhos invisíveis que foi sua vida, Lygia teceu suas proposições, seu projeto de vida e de arte. E Tteia 1C é o maior emblema de seu modo de ser e sentir e das suas convicções artísticas, tão radicais quanto inovadoras.

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