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Onde arquitetura e arte se confundem #Ensaio1nfinit0

Onde arquitetura e arte se confundem #Ensaio1nfinit0

Quem almoça sob a sombra dos guarda-sóis do restaurante Tamboril não pode ver nenhum resquício da piscina que hoje está soterrada sob seus pés. Lembro-me que a decisão do aterro deste espaço de lazer, a piscina da antiga casa de Bernardo Paz, que deu origem ao Instituto Inhotim, causou algum impacto em colegas que trabalhavam comigo na época. Entre 2005 e 2007 atuei como arquiteta dentro da instituição, desde então continuei colaborando no desenvolvimento de vários projetos arquitetônicos a partir de meu escritório – Arquitetos Associados – em conjunto com os sócios Alexandre Brasil, André Prado, Bruno Santa Cecília e Carlos Alberto Maciel. O aterro da piscina ocorreu algumas semanas antes da abertura de Inhotim ao público. Enterrar algo tão doméstico foi simbólico na transição do uso privado para o público.

Centro Cultural Burle Marx. Crédito: Ricardo Mallaco.

Centro Cultural Burle Marx. Crédito: Ricardo Mallaco.

Há mais de dez anos trabalhamos com equipes multidisciplinares, que envolveram curadores, artistas, paisagistas, engenheiros, museólogos, dentre outros. Entre tantas pessoas de diferentes áreas, tivemos a oportunidade de lidar com uma grande variedade de situações que envolvem arte e sua relação com arquitetura.
Inhotim oferece aos artistas uma condição única de inserir intervenções construídas relacionadas à paisagem, à topografia e à natureza. Esta abordagem site-specific direcionou o comissionamento de várias obras, de artistas como Doug Aitken, Matthew Barney, Valeska Soares e Rivane Neuenschwander. Trabalhei no desenvolvimento desses projetos. Em todos, a arquitetura teve um papel específico, atuando como suporte, ou consultoria, para o trabalho do artista.

Já nos projetos de galerias que desenvolvemos, é possível dizer que todos sintetizam o esforço da instituição em superar o cubo branco elencando algumas questões inerentes à relação dos edifícios com o contexto, tanto na inserção de novos elementos nessa paisagem singular, quanto na criação de transições mais sutis de espaços interiores para o exterior, entre espaços expositivos e o parque.

As estratégias variam e são específicas para cada projeto, para cada contexto. A manipulação da topografia para minimizar o impacto do volume construído da Galeria Miguel Rio Branco e o seu pavimento de acesso tratado como extensão do parque e intervalo entre suas duas áreas expositivas principais. A ambiguidade da leitura do volume construído na Galeria Cosmococa, ora extensão do chão com seu terraço gramado, ora volume construído sem atributos arquitetônicos revelados. A exploração do jogo de luz e sombras da envoltória de tijolos da Galeria Claudia Andujar, que estabelece um diálogo com a mata que a rodeia e sua luz filtrada, bem como as transições criadas pela pérgola de acesso que ameniza a incidência direta da luz zenital, e pelos pátios internos, tratados de maneiras distintas, como pausas, respiros ou clareiras naturais.

As circulações avarandadas e a ausência de limites na transição entre exterior e interior foram liberdades possíveis no projeto do Centro Educativo Burle Marx por não ser este um espaço expositivo, e prescindir do controle de climatização que tais espaços demandam. Sua horizontalidade, o pouso do edifício na cota intermediária entre os lagos existentes e sua cobertura espelho d´água minimizam sua presença na paisagem. Após a conclusão do edifício, os curadores, em uma escolha muito sensível, decidiram integrar ao espelho d´água o trabalho Narcisus Garden, de Yayoi Kusama. Suas quinhentas esferas brilhantes de aço inoxidável flutuam no jardim de água da cobertura ampliando a integração de arquitetura, arte e paisagem. Sintetizando a ideia da instituição.

É um privilégio ter participado de tantos projetos e ter acompanhado o processo de transformação que ocorreu nesta última década. Vida longa ao Inhotim!

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