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A casa de terra

A casa de terra

Crédito da foto: Alvaro Machado

Ao observar os tijolos que recobrem as paredes  externas do belo edifício de 1.600 m2, vinte ianomâmis levados da aldeia Toototobi (Roraima) a Brumadinho (MG) para a inauguração da Galeria Claudia Andujar, no Instituto Inhotim, em fins de novembro de 2015, apelidaram-na “A casa de terra”. O edifício abriga mais de 400 fotos da artista suíço-brasileira, tomadas sobretudo nos anos 1970 no território da etnia, demarcado em 1992. Foi realizado ao custo de R$ 12 milhões, com patrocínio do Banco Santander e a parceria de Arquitetos Associados, escritório belo-horizontino responsável por pavilhões como o do também fotógrafo Miguel Rio Branco, ligado à Galeria Claudia Andujar também por agradável trilha sombreada. A fração de 0,1% do contingente ianomâmi brasileiro – hoje com cerca de vinte mil indivíduos, não contadas as aldeias venezuelanas –, aprovou o pavilhão, a par de julgar as “imagens não-falantes” uma “coisa morta”. Os índios sabem que as fotos magnificadas em ampliações gigantescas servirão à preservação de seu modo de vida por mais algumas décadas e para combater males como os garimpos ilegais. Apenas no rio Apiaú, são contadas atualmente setenta balsas mineradoras.

Nos cinco dias da estada mineira, os índios regalaram-se com o bufê do Tamboril, o exclusivo restaurante local, a aceitar pela primeira vez comensais de torso nu, e conheceram alguns dos agora 19 pavilhões do parque. Foram vistos a rir incontidamente à saída da Galeria Cosmococa de Hélio Oiticica, reflexão sobre o pó consumido via nasal por não-índios, à maneira de sua iakoana, soprada com zabaratana nos narizes dos pajés.

A pajelança de inauguração, no último dia 26, foi praticada com todos os elementos do ritual. Foi usada a iakoana, mistura de pós vegetais que, aspirada, facilitaria a comunicação com os espíritos, para o espanto e a hilaridade de parte do público presente. O pajé “jovem”, assim apresentado pelo líder Davi Kopenawa aos convidados, lembrava em seus movimentos os tradicionais intérpretes do milenar teatro Nô japonês em cenas de lutas com espíritos invisíveis.

Fruto de cinco anos de trabalho de Andujar ao lado do curador Rodrigo Moura, diretor artístico de Inhotim, a galeria Claudia Andujar divide-se em quatro blocos. Eles intensificam, inicialmente, a materialidade da natureza amazônica, até alcançar seu oposto espiritual; consagram a harmonia do cotidiano indígena e sua sabedoria, tão rica como despojada; flagram a vulnerabilidade indígena, advinda sobretudo do contato com o branco, como na série Marcados; exibem uma valiosa coleção de 94 desenhos feitos pelos índios a pedido da fotógrafa, nos anos 1970, com visões interiores de sua cosmologia; e, finalmente, mostram a área ianomâmi já em 2010, com o olhar atento de Andujar a certa descaracterização. As dinâmicas estabelecidas entre as imagens e os espaços generosos, algo como um museu inteiro destinado a um único artista, lançam a obra da fotógrafa a novo patamar.

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