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A experiência da sedução

A experiência da sedução

Uma vida alcança significado, em boa parte, graças às revelações de que ela é feita. Provavelmente a primeira epifania que temos – pelo menos, enquanto não conhecemos mais sobre a vida intrauterina, que deve ser riquíssima – é a do nascimento. Nascer é uma experiência difícil, quase certamente sofrida, ainda mais porque se perde um ambiente acolhedor, cálido, molhado, protegido, para ingressar num vasto mundo que vai demorar muito para se constituir como bom; e não poucas vezes jamais chega a ser bom, nunca chega, sequer, a fazer sentido, a encontrar, este vasto mundo, uma rima que o redima. Mas, depois disso, vamos tendo revelações. Uma das peças publicitárias mais celebradas de nossa cultura – isso, sendo o Brasil um país que tem publicitários de primeira linha – é a do primeiro soutien que “a gente nunca esquece”: o rosto do menino iluminado, entre fascinado e chocado, ao ver pela primeira vez uma mulher somente de soutien, numa revelação talvez precoce, talvez não, da beleza feminina como sendo de ordem sexual. O erotismo surge assim como efração, como surpresa, como deslumbramento – e, como tudo o que deslumbra, como algo que eclipsa, ofusca, muda para sempre o modo de olhar as coisas.

Toda grande revelação é assim. Ela retira o véu que encobre o mundo, ela desvela, portanto, e ao mesmo tempo ela mostra a verdade, o que estava por trás do véu, o que se achava escondido. Seu primeiro efeito é o de preencher os olhos tanto, que nada mais sobra. Por alguns instantes, que podem parecer demasiado longos, a vista está tão cheia que somem os objetos; em seu lugar, aparece – o quê? Uma luz? Objetos novos? Uma chance de viver a vida de um modo diferente?

Vivo numa cidade que deve o nome a ter sido fundada no dia em que se festeja um cegamento. Pois seu patrono, Saulo de Tarso, perdeu a vista numa viagem a Damasco. Ele até então vivia perseguindo os cristãos, implacável. De repente, em plena estrada, fora de toda urbs, de toda civitas, de todo espaço urbano que protege e resguarda, uma luz o cega e uma voz o interpela. O episódio é conhecido, e não vou recontá-lo. A revelação de Cristo a seu perseguidor ofusca Saulo. Ele convalesce e se converte. Toda grande revelação só vale, pois, se ela opera uma conversão. Nada será como antes. O perseguidor se torna pregador. Saulo se torna Paulo. Perde o gentílico e se abre aos gentios. São Paulo nada mais tem a ver com Tarso. Ele deixa o local e se torna global. Provavelmente foi o primeiro grande globalizador da religião. O cristianismo, que poderia não ter passado de uma seita do judaísmo, quando muito de uma mudança no judaísmo, graças a ele sai da Terra Santa e parte para o mundo. Não será mais a religião de um único povo, mas uma que se dirige a toda a humanidade. Por isso, foi essa a mais célebre das conversões, seguindo-se à mais célebre das epifanias.

Inhotim é uma revelação. Não conheço ninguém que tenha visitado o centro de arte e não tenha saído – a palavra que empregam é geralmente uma destas – deslumbrado, impressionado. Eu tive o privilégio de ser apresentado ao centro por Cláudio de Moura Castro, que me trouxe um catálogo que, a cada imagem, causava essas impressões – marcas fortes que ficam na alma e, por vezes, no corpo – que não são deléveis. Ficam. Fui assim seduzido pelas imagens, antes de conhecer o lugar que celebra, justamente, imagens, pois que arte é isso, são imagens. Falei em “seduzir”, e a palavra é correta – pois seduzir é desviar (ducere) do caminho certo. Mas o que é certo, quando se trata de arte, de criação? O certo geralmente é o menos bom. O que vai gerar futuro começa geralmente por ser errado. As obras que estão em Inhotim, sejam as que cabem no conceito usual de imagem em duas dimensões, sejam as que se abrem para mais dimensões, inclusive a sonora, rompem com a doxa, com a ortodoxia, isto é, com a opinião dita correta. Elas desviam-se e desviam quem as frequenta. Esse convite ao torto, ao diferente, é uma das contribuições mais importantes que a arte contemporânea oferece a quem a vivencia (por isso mesmo, em Inhotim não há espectadores, que manteriam com os objetos a distância mais ou menos tranquila que vige entre um sujeito e o objeto que em nada o modifica). Inhotim não é feito para os Bourbons da legenda, que voltam ao poder na França em 1814, depois de um quarto de século exilados, “não tendo esquecido nem aprendido nada”. É uma experiência de vida que faz aprender muita coisa e, sem dúvida, esquecer outras – porque talvez não haja aprendizado sem essa faculdade, que Nietzsche dizia ser extremamente ativa, extremamente necessária para a criação, que é o esquecimento. A cultura que vale a pena é esta: a que modifica quem a frequenta.

Lembro Freud, num artigo de 1916, em que deplorava a Grande Guerra então em curso, recordando com nostalgia os tempos imediatamente anteriores, quando o homem culto viajava pela Europa como se cada país, cada cultura, fosse uma sala diferente de um grande museu. Nada define melhor a concepção do que não é Inhotim. O Centro de Arte Contemporânea não é um museu feito para as pessoas apenas se deleitarem apreciando objetos variados, que em nada as interpelem. É uma série de perguntas, quase um questionário que se dirige a cada um de nós, contestando-nos, oferecendo-nos prazer – sem dúvida –, mas também sucessivas dúvidas. E com isso temos revelações que são diferentes das que inspiraram o apóstolo, pois elas não trazem certezas, não entregam uma nova fé, uma ortodoxia que suplante as anteriores, mas questões, perguntas. Não é por acaso que Inhotim muda a cabeça de quem se acostumou a apenas se deleitar ante as obras de arte, retirando-os do mundo possivelmente blasê do connoisseur, ao mesmo tempo que fascina os jovens, aqueles de olhar virgem.

Termino com uma anedota veraz. Certa vez, encontraram-se os dois maiores filósofos que a França proporcionou ao mundo na segunda metade do século XX. Era por volta de 1970. Foucault disse a Deleuze: “Um dia, o século será deleuziano”. Queria dizer que os pensamentos tradicionais, os que remetem a Aristóteles, Descartes e Kant, não davam conta do que despontava entre os mais novos. Ora, é o que presenciamos desde pelo menos aquela época imediatamente posterior a maio de 1968. O mundo muda em alta velocidade e mal damos conta de entender, quanto mais teorizar, o que nasce diante dos olhos. Inhotim faz parte desse novo mundo. Podemos ter escassa teoria a respeito, mas nós o enxergamos. Por isso, certamente, os jovens aqui encontram tanto prazer.

*Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política da Universidade de São Paulo e membro do Conselho Consultivo de Inhotim. Ele também faz parte do Programa Amigos do Inhotim desde 2011.



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